EIXO
TEMÁTICO: POLÍTICA, EDUCAÇÃO & MODERNIDADE
NOSSA GOTA DE FEL
O Papel Político da Escola
Como a escola brasileira perdeu o monopólio da curadoria do conhecimento
para o algoritmo das redes sociais e o que resta do nosso ofício
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Por Daniel Marinho • Professor há 27 anos • Tempo de Leitura: ~8 min • Ensaios para o Apocalipse |
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“É preciso
estar atento e forte!” |
I. O Parto a
Fórceps e os Dez Anos de Sombra
Segundo turno das eleições presidenciais no
Brasil, e a sensação era a das dores de um parto a fórceps. Dores, lamentações
e ansiedade — muita ansiedade. Quanto às lamentações, a principal delas
certamente girava em torno do nosso diagnóstico: qual teria sido o erro? Onde
deixamos as arestas livres para o crescimento assustador da extrema-direita?
Para deixar o nosso gosto de fel ainda mais
intragável, estamos lamentando esse avanço, no mínimo, desde o processo de
impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016. Portanto, camaradas, atenção:
são, no mínimo, dez anos em que a cadela do fascismo ganha forma, força e fé na
nossa sociedade. O medo que se avizinhava — e que continua terrivelmente vivo —
é a mistura ordinária entre as intenções entreguistas neoliberais, o
milicianismo como produto de exportação, a raiva babenta comum ao eugenismo fascista
e as promessas de prosperidade e hegemonia do neopentecostalismo. Valei-nos,
Nossa Senhora Aparecida!
Sim, mesmo com a vitória eleitoral de Lula, é
agora que precisamos estar atentos e fortes. O Poder Legislativo permanece sob
o controle dos conservadores. Portanto, as frentes de resistência devem ser
múltiplas, e organizadas devem ser as manifestações do povo em todos os tipos
de praças públicas.
II. O Drama
Vexatório da Sala de Aula
Permitam-me falar um pouco a partir do meu chão:
o que é ser professor nos dias de hoje. Já se vão vinte e sete anos nessa
labuta diária do magistério. Contudo, ao ouvir muitos dos camaradas
professores, percebo um consenso doloroso: a geração que estamos educando
destaca-se por dificuldades que sempre existiram, mas que agora parecem ter se
acentuado de forma dramática. Falta de atenção crônica, violência latente,
desrespeito explícito aos docentes e, permeando tudo isso, a omnipresença
avassaladora das redes sociais.
O nó górdio da nossa época está no 'trabalho do
algoritmo', que operou a desvinculação do monopólio do conhecimento da sala de
aula para entregá-lo às plataformas digitais — e, com ele, a uma quantidade
gigantesca e incontrolável de fake news.
Hoje, a escola brasileira vive o seu drama mais
vexatório. Ela continua exigindo que adolescentes silenciem seus corpos para
ouvir preleções formais sobre a estrutura celular das briófitas enquanto, no
bolso do uniforme, o algoritmo do TikTok entrega uma cosmologia inteira —
rápida, histérica, fascinante — a cada deslizar de polegar. E tal qual um
labirinto essa cosmologia também entrega em profusão, racismos, misoginia,
xenofobia e uma fermentação de ódios revestidos de cortinas de fumaça que
prometem resolver problemas que na verdade não existem. Moinhos de vento
confundidos com gigantes desaforados diria Cervantes. Podemos até dizer que
muitos professores conseguem e usam com desenvoltura ferramentas digitais para
dinamizar suas aulas, mas essa não é a questão central.
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“Uma mentira contada mil
vezes torna-se uma verdade.” — Propaganda de um regime infame |
A nossa agonia presente é que estamos
experimentando na pele a máxima do regime autoritário. Na verdade, a sensação
atual é ainda mais desesperadora: a mentira sequer precisa ser dita mil vezes
ou duas vezes; basta um disparo em massa no WhatsApp para ser assimilada como
dogma. E, contra tudo isso, estamos nós, os professores.
III. O Tapa de
Pelica e o Espírito Político da Docência
A agonia mais aguda que senti, logo ao término
do primeiro turno, foi receber mensagens de ex-alunos instigando-me com a
exclamação: 'Toma, porra!'. A mensagem vinha acompanhada da postagem sobre a
vitória de um deputado cuja pauta fundamental nas redes sociais era, dentre
várias atrocidades, o discurso de que 'professores são vagabundos'.
Chorei. Um choro contido, entremeado por uma
parcela inevitável de ódio — humano, demasiadamente humano. Mas, como tudo o
que é humano, nós decidimos o que fazer com a dor e com a informação que nos
atiram. Decidi estar atento e forte.
Decidi não esquecer que, absolutamente sim, a
totalidade do ofício do magistério possui um espírito político intrínseco.
Político é quando ensinamos que a política é a extensão natural da ética,
resgatando Aristóteles. Político é quando repetimos centenas de vezes que a
história do Brasil é a história da implantação violenta do capitalismo
predatório, assentada na manjedoura da escravidão como argamassa fundacional e
etc etc etc etc.
Laicidade,
cientificidade, inclusão, diversidade e DEMOCRACIA! Político é quando lembramos que a escola
moderna se sustenta sobre pilares inegociáveis:
As postagens direcionadas a mim machucaram?
Óbvio. Mas serviram como um tapa de pelica em um rosto já cansado. Em meio ao
contexto em que vivemos, será necessário sentir, pensar, fazer e criar novas
formas de resistência pelo simples fato de sermos educadores.
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“Estamos lutando pela
hegemonia? Imagine-se! Estamos lutando apenas para não ficar malucos. Para
não dizer besteiras demais. Para não contribuir com a nossa gota de fel para
um veneno alheio. Tomemos a nossa cicuta com tranquilidade, meus filhos.” — Profa. Maria da Conceição Tavares |
Decidi voltar a tomar minha cicuta com
tranquilidade. Sim: incendiar, envenenar, mas fundamentalmente provocar. Não
podemos chegar daqui a quatro anos assistindo, mais uma vez, a uma parte da
juventude que ajudamos a formar cultivando um ódio banal contra a classe que os
guiou pelos caminhos do saber, nem tampouco enaltecendo figuras políticas que
conspiram contra a laicidade, a ciência e a democracia.
A democracia é frágil como uma flor: se não a
regarmos diariamente, ela despetala e morre.
IV. O Rubicão e
a Curadoria do Caos
Sempre insisto para que meus interlocutores
concordem ou discordem de mim. O debate é uma agonia sinuosa que oscila entre a
dor da construção coletiva e a indiferença da incredulidade. No entanto, nos
últimos tempos, certas linhas deixaram de ser apenas debatidas: foram
acintosamente atropeladas. É Júlio César cruzando o Rubicão.
Desde que a extrema-direita passou a ocupar com
gana os espaços vagos deixados pela centro-esquerda no Brasil, chorei pela
primeira vez. Não de fraqueza ou tristeza pura, mas de profunda raiva. Estamos
falando, sim, do lugar político e social da escola.
A escola perdeu o monopólio da curadoria do
conhecimento. E, ao perdê-lo sem sequer compreender a natureza da metamorfose
em curso, deixou o terreno livre para que a praça pública fosse ocupada por
mascates de ilusões e ilusionistas de palanque. Ter que ouvir republicações
apaixonadas chamando-nos de vagabundos — vindas de quem jamais pisou numa sala
de aula para enfrentar os desafios de ensinar — é uma pílula amarga que a
maioria dos professores conhece bem.
Houve quem profetizasse que a democratização do
acesso à internet seria a alvorada de um novo Iluminismo. Dizia-se que, ao
colocar a biblioteca de Alexandria na palma da mão de cada jovem, a ignorância
seria sumariamente erradicada. O que os tecno-otimistas esqueceram de calcular
foi a nossa assustadora incapacidade humana de processar a abundância
desordenada. E sim meus amigos, no contraponto da tristeza também chorei de
emoção com os relatos de tantos outros ótimos ex-alunos que, na festa da
madrugada desse dia 25 para 26 disseram-me: obrigado por contribuir para a
minha formação!
É aqui que se insere a nossa missão urgente:
nós, professores, precisamos assumir o papel de Curadores do Caos. Sem medo do
confronto intelectual e político, precisamos nomear as coisas pelo seu devido
nome — explicar que fascismo é fascismo —, sob pena de termos que beber doses
cada vez mais letais de fel a cada pleito eleitoral.
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Daniel Marinho |


