sexta-feira, 12 de março de 2021

FALANDO EM DESIGUALDADES!

 

            Um assunto simples de se falar, naturalizando sua existência ou denunciando suas estruturas sociais – mas muito difícil se combater: Vamos falar em desigualdade social!

            Todos os meses de janeiro acontece o Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). O encontro tem como objetivo discutir os principais direcionamentos do comércio internacional e as possibilidades para a saída de crises do sistema financeiro e organização da riqueza produzida pelas nações e empresas. É óbvio que nem todos os dinamismos dos sistemas econômicos mundiais são levados em consideração, principalmente por que o Fórum acontece em posicionamento as exigências mais contemporâneas, ou de interesse mais direto dessas nações. Desta feita o tema proposto por nós nesse texto, a desigualdade, não é, nem nunca foi lá alvo de grande preocupação do fórum.

            Em 2020 uma pesquisa foi lançada momentos antes do Fórum. Certa quantidade de sal foi posta na ferida. Ela relata que um pequeno grupo de pouco mais de duas mil pessoas possuem patrimônio maior que 1 bilhão de dólares. A detenção desta riqueza equivale ao total de riquezas de 60% da população mundial. Esse levantamento foi realizado pela Rede de organizações não governamentais - OXFAM. A concentração de renda é o vetor fundamental que indica a desigualdade no mundo – simples! Da pesquisa inclusive, podem ser retratados vários dados aterradores como: 22 homens possuem a riqueza de todas as mulheres da África. Ao término da questão a desigualdade gerada pela péssima distribuição de renda no mundo faz, hoje, com que bilhões de pessoas tenham que sobreviver com menos de 5,50 dólares por dia.

            Dos 82 países pesquisados, o Brasil ocupa a 60ª posição do ranking. Os esforços rendidos pelos vários fóruns alternativos a Davos não tem representado grandes consequências para a mudança dos cenários de desigualdade no Brasil e no Mundo. E por que?

1.        A desigualdade não pode ser encarada de forma singular, ela é plural. Mesmo que ela parta do grande motivo que é a péssima distribuição de renda, que emerge de privilégios inatingíveis para 99% da população, as causas são diversas. No Brasil, por exemplo podemos apontar a petrificação dos privilégios para a classe rentista que acumula bilhões de reais em lucros que, inclusive saem em grande medida da circulação de riquezas do país – empobrecendo inclusive a circulação de mercadorias e a prestação de serviços, enfraquecendo a economia.

2.      A desigualdade é naturalizada pela mídia, pelos costumes e pelo processo histórico da construção da civilização, tanto oriental quanto ocidental. Em maior ou menor medida, é impossível não vermos uma nação em que a classe dirigente não tenha construído uma narrativa histórica e quase mítica para apontar as razões seculares, consagradas e naturalizadas dos seus privilégios. As castas na Índia, a opressão de regimes ditatoriais de esquerda ou direita... O processo de naturalização da desigualdade, emergente do processo de escravidão no Brasil customiza a nossa desigualdade em um discurso racial e que imprime narrativas pejorativas de ódio aos pobres.

3.      A desigualdade é legitimada. Não foram incomuns historicamente as organizações de modelos políticos que estabelecessem privilégios, implicitamente ou não. De forma mais violenta ou não. O processo de legitimidade cria inclusive, e de forma eficaz, uma carapaça protetora a narrativa da desigualdade. Estar na lei seria estar, em certa medida, dentro da malha de privilégios que segregam. Não queremos dizer com isso que devemos viver em anarquia, mas precisamos sempre refletir que o sistema legislativo que prima pelas garantias de direitos, no nosso caso também protege grandes fortunas de uma maior tributação. Dentro da lei os bilionários conseguem se safar de até 30% do valor dos tributos que normalmente um cidadão comum deve aos cofres públicos, proporcionalmente.

4.      A desigualdade está e tem efetividade para todos, entretanto ela acontece de forma mais acentuada para as mulheres. Segundo a pesquisa 75% dos trabalhos realizados sem registro ou direitos são desempenhados por mulheres. Precisam, na maioria dos países em desenvolvimento, combinar os processos cotidianos do trabalho, dos cuidados com a família, da agricultura e etc., criando uma espécie de redemoinho que impede a articulação de um trabalho em que possam minimamente pensar em crescimento humano.

5.      A desigualdade é geográfica e produz uma divisão continental dos espaços na civilização. Os processos históricos que desencadearam na modernidade mostram que a desigualdade está posicionada na América (incluindo os EUA), Ásia e África abarcando mais da metade da população do planeta. O mais importante deste dado, é que ele evidencia que a questão da desigualdade seja pauta de interesse apenas para alguns grupos, não constituindo efetivamente um norte para a organização e implementação das políticas públicas no mundo.

 

Em meio a todas essas questões, o discurso liberal sintetiza, naturaliza e até mesmo sacraliza o discurso que dissocia a responsabilidade do sistema econômico, sendo a desigualdade um problema específico de organização dos governos. Ou não estamos vendo cada dia mais discursos que falam em menos direitos trabalhistas, mais tempo de trabalho e a reorganização da economia para desestatização do estado? Falaremos mais sobre essas associações!  

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CORONAVÍRUS E A HISTÓRIA COMO FARSA E TRAGÉDIA

 

Estamos em Alagoas, completando um mês de quarentena. Mesmo que no final das contas tenha a real impressão de que ela não está acontecendo a contento. Quando fui comprar remédios testemunhei engarrafamento na avenida Fernandes Lima. Pois bem... sigamos... Raul Seixas, profeta e músico baiano cantarolou durante certo tempo uma canção óbvia para os tempos que estamos vivendo, ela diz no refrão: ... o dia em que a terra parou! ... o dia em que a terra parou! E nas estrofes ele cita abundantemente os exemplos das atividades sociais que parariam. Ladrões e policiais, estudantes e professores, médicos e pacientes e etc.. A lição catastrófica e distópica da letra nos alerta para uma questão óbvia de que vivemos em laços de interdependência que são extremamente frágeis. A nossa sociabilidade é frágil... e mesmo que tenhamos aprendido isso na escola, sempre vimos essa exemplificação em realidades distantes do passado em que não vivemos, e perfeitamente, pouco aprendemos com elas. Guerras mundiais e civis, exploração, inundações, terremotos, violência desmedida e etc.

No final das contas um elemento invisível tem a potencialidade de nos desarticular enquanto sociedade afetando sobremaneira o ritmo das nossas vidas e a disposição do nosso cotidiano. E importante também dizer que a pandemia de corona vírus é a primeira catástrofe dessa dimensão e característica que essa geração está enfrentando – podemos citar algo semelhante em escala mundial que já tenhamos vivido? Mesmo que não nos seja tão óbvio, sim, já vivemos algumas epidemias a nível continental e mundial – da AIDS a dengue, entretanto nenhuma tomou em pouco tempo a proporção que esse momento tem demonstrado. E observemos que só estamos no começo, e ninguém sabe ao certo qual será o saldo ou os despojos. Como exemplo das proporções da pandemia ficamos com a fala da chanceler alemã Ângela Merkel que disse que o momento atual se assemelha, em desafio, a IIª Guerra Mundial. 

O mundo está entrando em colapso? A pergunta pode parecer impertinente e até mesmo deslocada, já que junto a essa áurea estranha de quarentena somasse todo o clima de histeria coletiva em que o real sentido do problema ou é superestimado ou subestimado. E por certo tempo o Rapsodo estava se esquivando em escrever um texto sobre o tema, mas enfim, estamos aqui. A alta capacidade de contágio, a porcentagem considerável de letalidade e a falta de um tratamento e curas adequados fazem com que pensemos em outros momentos e experiências históricas. E não precisamos ir tão longe, para as epidemias medievais da peste negra, por exemplo – mas ao grande surto de gripe espanhola no começo do século XX.

“A História repete-se sempre, pelo menos duas vezes” (Hegel). E Marx o acrescentando completou que “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Pois sim que, a gripe espanhola, em seu início, também foi tratada no Brasil como uma “gripezinha” de onde é que esse termo tenha vindo, ou a quem conclame. Tal como hoje, a gripe espanhola ganhou um adjetivo pátrio, mesmo que o vírus em si, não reconhecesse fronteiras nem muito menos nacionalidades. Primeiro indício de farsa: dar nacionalidade ao vírus é permear o discurso de culpa para determinado povo. Alguns levantamentos descrevem que, como tragédia a gripe espanhola chegou a matar 20 milhões de pessoas já outros somam o total de 50 milhões – em todos os casos foi subtraída uma porcentagem significativa da população do mundo na época.

Em setembro de 1918 aportou no Recife o navio cargueiro S.S Demerara, da Companhia Royal Mail Britain, vindo de Liverpool e passado por Lisboa. As notícias dão que a tripulação e o computo dos passageiros a bordo estavam quase todos contaminados com a gripe espanhola – daí a contaminar boa parte da cidade do Recife foi muito breve. E mesmo sem ter tido nenhum tipo de averiguação mais competente das autoridades sanitárias o Demerara saiu do Recife em direção ao Rio de Janeiro. No início de outubro de 1918 já eram mais de 50 infectados no Rio de Janeiro – a epidemia já estava instalada. E já no dia 10 do mesmo mês, dias depois, já eram contabilizados 400 doentes. A tragédia começava, mas sempre acompanhada de uma farsa, pois dias depois, o Diretor Geral de Saúde Carlos Seidl reuniu a imprensa e em declaração alardeada proclamou a farsa de que a gripe era benigna – que era a forma de dizer que se tratava de uma gripezinha na época. Só faltou realmente dizer que possuía um histórico de atleta, não temos essa parte do pronunciamento. E mais, nos jornais diários do Rio de Janeiro dos dias seguintes enfatizou que tudo não se tratava de sensacionalismo histérico da imprensa. Deste ponto em diante seguiram-se os ataques mútuos entre imprensa e governo. Ao ponto de Seidl solicitar ao presidente da República Venceslau Brás a censura total da imprensa quanto ao assunto. Mas desde já, nessa época a Globo? Deixa para lá... sigamos.

No Rio de Janeiro houve inclusive a necessidade de se adaptar locais públicos em hospitais, inclusive o estádio do Vasco da Gama – São Januário. Nesta fase e na urgência sanitária desses locais Carlos Chagas chegou a assumir o combate da epidemia – seria a rendição do negacionismo politiqueiro da época a urgência dos métodos científicos? Pois a tragédia já estava instalada. Sigamos! Em várias capitais do país o problema se assemelhava ao Rio de Janeiro inclusive com relatos de abandono de doentes e mortos e a necessidade da construção de cemitérios para abarcar tantos defuntos. Em Maceió a situação foi semelhante – que diga o cemitério de São José, que, diga-se de passagem, não está mais comportando nem mesmo a demanda atual. A tragédia contabilizou no Brasil, por alto, 40 mil pessoas.

Por outro lado, a farsa crescia como rastilho de pólvora. Parece-nos que, em toda crise os abutres se fartam. Surgia nos jornais de várias cidades brasileiras um elixir aqui, uma garapa ali, um tônico acolá até quem sabe uma cloroquina como bálsamo que apaziguasse os anseios da população em busca de uma cura fácil e rápida contra a gripe. Falava-se inclusive da necessidade de se tomar sol na praia como forma de se imunizar do vírus, além de cachaça com limão ou uísque com gengibre, canja de galinha bem forte – “bons tempos”. Entretanto não temos notícias se Venceslau Brás à época apresentou algum tipo de cloro... já hoje...  Nos EUA o remédio da hora era o quinino, e quando a notícia se espalhou pelo Brasil houve uma corrida desenfreada e inflacionada ao remédio – que na verdade nenhum efeito cientificamente comprovado repercutiu.

O contágio e os efeitos da gripe espanhola no Brasil duraram até o ano seguinte, e entre as vítimas contabilizadas estava o então reeleito presidente da República, o Sr. Rodrigues Alves, acometido pela influenza espanhola veio a falecer em janeiro de 1919. Não vamos mais falar em coincidências... Mas o certo é que, de forma ampla e como sociedade, não aprendemos muita coisa com a História.

Daniel Marinho é o Rapsodo dos Sertões e teve o apoio da leitura do artigo “Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro” da autora Adriana da Costa Goulart      

O CORINGA, A CRÍTICA SOCIAL E O ANTI HEROÍSMO

 


Nunca fui fã de filmes de super-heróis. Desde adolescente, e antes mesmo disso, eles possuem um tom pastel, adaptado às inocências dos adolescentes e crianças e revelam que os roteiristas podem ter serviços muito simples. Normalmente seguem a mesma direção da apoteose do mocinho e construção de uma simbologia ideal para seus expectadores. Por essas razões, e pelo sono intrépido que me toma quando não me interesso por algo, passei bom tempo negando assistir a última versão do CORINGA – personagem que mistura o ar jocoso com uma espécie de vendeta aparentemente sem sentido. O tempo passou e finalmente me rendi à referência da quinta pessoa que me alertou sobre a qualidade do filme: “assista! Não é filme de herói.... Você vai gostar! ” – Assisti...

Tratou-se, enfim, de uma experiência singular.... Um filme esplêndido.... Ao final das contas me senti arrebatado pela construção da narrativa da personagem Coringa sendo interpretado de forma singular pelo ator Joaquim Phoenix. Uma verdadeira crítica social à violência, ao desenvolvimento da relação do indivíduo com a sociedade, à indústria do entretenimento, à formação e desenvolvimento da luta de classes, enfim o autor conseguiu tudo isso com doses cavalares de tensão e cenas que na verdade descobríamos no final tratarem-se de alucinações.

Coringa é cometido de uma doença mental em que não consegue controlar o próprio riso. São muitas as cenas dos risos impróprios e o close da câmera na feição/interpretação do ator onde ele alterna o riso frouxo com o choro desvalido. Inclusive na ambientação inicial de Gotham City o Coringa está frente ao espelho forçando o sorriso icônico – o detalhe perturbador é que junto ao sorriso desce uma lágrima que carrega bastante angústia. Esse enigma metafórico percorre todo o filme, deixando os espectadores com uma certeza, que era a de que ele pertencia a uma espécie de mundo e percepção paralelos. Para tanto, os remédios que toma trazem para ele um equilíbrio distante, mas constante ao ponto de poder tratar sua mãe e manter um emprego como palhaço. Coringa é um sujeito fraco, palhaço fracassado – enfim, o estereótipo do homem comum que embora medíocre possui algumas aspirações. As principais são ser humorista e participar de um programa de TV muito popular. No mais, pelo dito o Coringa possui ambições próximas as da bolha das redes sociais. Nos momentos de delírio, quando se via participando do programa ou de frente ao público a percepção que tive era muito próxima ao teatro coletivo das redes sociais em que cada um de nós mostra parte da nossa personalidade hedônica e megalomaníaca. Não seria um desvio/padrão? As nossas máscaras? Da necessidade de mostrar-se como corpo, como algo interessante aos outros e até mesmo pertencente de ideias modernas? O real, os afetos e as relações de carne e osso seriam bem mais difíceis de se encarar.

Na tensão criada entre o ideal imagético e pitoresco do mundo paralelo do humor e a agonia de uma vida triste e decrepita a esquizofrenia se estabelece, e mesmo que o Coringa recorra insistentemente ao tratamento, quando é abandonado pelo estado, essas percepções se confundem de uma forma que tenho certeza que, como eu, alguns espectadores chegam a ter pena da personagem.

A sacada final, que me chamou também a atenção foi a extensão que os seus atos passaram a tomar. O ato do Coringa matar os três homens que estavam assediando uma mulher no metrô toma proporções políticas, incidindo em discursos antagônicos entre conservadores dos preceitos das famílias de “bem” – abastados e o símbolo da turba de palhaços que reivindicam justiça social impulsionados pelo fato. Os discursos do pai do Batman são bem parecidos com parte da narrativa conservadora brasileira e mundial. A partir desse momento, e das mortes que ainda é responsável durante o filme (inclusive a da própria mãe) abre-se outro palco para o Coringa que, antes perdedor e desvalido passa a ter seu desfecho apoteótico no talk show tão sonhado e nas ruas em protestos que nem imaginava ser o mito fundador...  As realidades passam a se confundir mais uma vez, desvelando um monstro para a narrativa do filme e uma provocação bastante atual para nós. Quatro estrelas e meia na minha humilde opinião!

 

 

  

CARNAVAL E O DESENGANO DA IDENTIDADE ALAGOANA

 


Alguns avisos preliminares ao texto que se segue: Não! Não gosto de carnaval. O medo do movimento da turba não me deixa sossegado! Músicas que descem até o chão, com sempre o mesmo ritmo, sempre a mesma melodia, sempre as mesmas metáforas de segundas e terceiras intenções trazem um cansaço sepulcral – só de olhar. Entretanto reconheço de forma óbvia a importância da festa de Momo para conformação da identidade nacional, espécie de vitrine do estereótipo cultural brasileiro do samba, do axé, do frevo, da festa, da apoteose. Então por esses e outros motivos, que se dane minha observação sobre o carnaval e que todos sejam felizes. Segue o texto:

Regionalizando a discussão pensei muito na relação de Alagoas com o carnaval e, em decorrência, com a formação da sua identidade. A minha motivação foi uma observação superficial do bloco “Pinto da Madrugada”, a razão da sua existência com algumas impressões que sempre tive a respeito. Não sei se seria interessante me aventurar nesse nível de chatice, ou seja, enquanto as pessoas se divertem inocentemente no Pinto e tantos outros blocos aqui estou para cumprir o papel de crítico da alegria alheia – mas alguém tem que cumpri esse papel – deveras inútil.

A derivação filial do Pinto, seguiu em Alagoas inclusive a do “Ovo da madrugada” – o Pinto em si é de toda a ilustração das classes abastadas da cidade de Maceió, que no final das contas orgulham-se das referências pernambucanas, tanto para tendências conservadoras da dita família tradicional alagoana quanto para as tendências libertárias voltadas a valorização dos traços regionais da cultura de Pernambuco. Mas no final das contas, o frevo revela certo elitismo de suas origens e apropriações. Não deixam de ser laços indissociáveis de uma sociedade que, em suas narrativas históricas mais correntes tem como referências oficiais o patriarcalismo, o coronelismo e o elitismo. O Pinto da Madrugada é um bloco das reminiscências saudosistas da nossa classe média das praias de Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca. Ele tanto o é uma versão pernambucalizada da alegria da classe média da cidade de Maceió que na verdade seria mais adequado chama-lo de bloco pré-carnavalesco, por acontecer sempre antes do carnaval.

Voltando as referências elitistas da narrativa histórica e social da identidade de Alagoas, e como elas conseguiram soterrar as manifestações populares, pensemos no Quebra de 1912. O evento da pedagogia da violência a que as religiosidades de matriz africana sofreram desencadearam uma cultura maciça de total aversão contra as manifestações dos afoxés, por exemplo. Somente recuperados décadas mais tarde, sem nem ao menos serem necessariamente uma reminiscência dos antigos blocos de afoxés do início do século XX. Nossa tradição elitista, patriarcal e de violência exalta a figura de dois marechais amorfos, que pouquíssimo contribuíram efetivamente para a sociedade alagoana, mas são responsáveis inclusive pelo “nome de guerra” do estado – Terra dos Marechais. Mas onde reside no alagoano os atributos de força dos Marechais? Seus feitos são efetivamente importantes para traçarmos uma genealogia dos alagoanos? Nossa resposta é óbvia: Não.

Nossa narrativa identitária escolheu, e escolhe seus vultos. Ela constrói cenários de grandes feitos e, nessa eleição, quase que naturalizada, lhes confere epopeias, verdadeiras histórias de sucesso e representatividade nacional e mundial. Estão nesse panteão das narrativas da formação da identidade alagoana: Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Lêdo Ivo, Djavan, Marta, Zumbi, Aurélio Buarque de Holanda, Artur Ramos, Nise da Silveira e claro os Marechais Deodoro e Floriano – dentre outros.

Podemos mencionar inclusive a construção da narrativa das Alagoas paradisíacas, essa talvez tão paralisante e sedutora quanto a outra. O paraíso das águas também nos serve para a construção de uma narrativa sobre Alagoas pouco pulsante, contemplativa e elitizada. Nos orgulhamos, no final das contas de um conjunto de balneários caros e praias poluídas que infelizmente são loteadas, em algumas partes para usufruto colonial da nossa elite.

Todas as narrativas mencionadas servem para a construção de um orgulho atabalhoado e pouco útil, por que ao mesmo tempo em que sentimentos são criados, a reboque sempre são criados silêncios retumbantes sobre a vida do povo, suas vivências e principalmente seus processos de resistência. O silenciamento sobre o que emerge das classes populares e do que é ser alagoano de fato, seja na criação dos nossos vultos, na visão paradisíaca da nossa natureza e até mesmo na pernambucalização do nosso carnaval, produto acabado e esquizofrênico que a nossa classe média praiana insiste com a encarnação do Pinto.   

Daniel Marinho é o Rapsodo dos Sertões.

 

BOLSONARISMO E A ESQUIZOFRÊNIA DO BOI DE PIRANHA

 

                Não sei ao certo se a história do “boi de piranha” procede. Desde há muito tempo ouço que ao entrar no rio os peões tangem um boi que esteja mais fraco, ou mais velho para entrar primeiro nas perigosas águas. Enquanto as piranhas se fartavam do pobre animal toda a boiada passava sem ser incomodada. No final das contas, o sacrífico do “boi de piranha” serviu perfeitamente para que a boiada chegasse ao destino geral: o matadouro.

                Sempre penso no boi de piranha quando ouço ou vejo alguma notícia ou declaração de vários membros do atual governo. Aliás, o atual governo me faz pensar sobre várias coisas, principalmente na desesperança e na desconstrução dos discursos de inclusão das minorias. Certamente irei me perder em meio a quantidade absurda de declarações, sem pé nem cabeça, que majoritariamente demonstram um ódio com pitadas amargas de rancor contra: universidades, ciência, mulheres, negros, artistas, professores, educação, gays, ambientalistas, movimentos trabalhistas e etc.

Se fizermos uma retrospectiva dos discursos, da parte do presidente e seus asseclas, encontraremos: Preocupação com práticas sexuais pitorescas no carnaval, declaração jocosa sobre o passado de tortura em que opositores políticos passaram, insinuação sobre a suposta falta de beleza da mulher do presidente da França, paranoia de caça a comunistas na educação, acusação contra artistas internacionais, reconstrução de estereótipo para a roupa da cor da vestimenta das crianças, acusação de que personagens infantis incitam a homossexualidade, negação sobre o desmatamento da Amazônia, convite para que estrangeiros venham fazer sexo com as mulheres do Brasil, teatralização de ministro da propaganda nazista, defesa da obtusa e inútil sandice de que a terra é plana, separatismo na referência ao Nordeste como sendo “a região deles”, xingamento às mães de jornalistas, defesa inútil da ideia da mudança da aceitação de Jerusalém como única capital do estado de Israel, solicitação para que as crianças cantem o hino nacional e proclamem o slogan do governo nas escolas, declaração de que o nazismo é de esquerda, simplificação para o livro didático, insistência no combate a educação sexual nas escolas, Beatles ligados ao satanismo e apoio ao uso de drogas... enfim... certamente o caro amigo leitor tem tantas outras atrocidades verbais gravadas na memória e no fígado ditas por representantes deste governo.

Minha humilde opinião sobre todas elas: Conscientemente ou não, todas elas fazem parte de um sistema de crenças desses representantes, sistema esse arraigado a concepções ultraconservadoras da realidade – final das contas eles são realmente anacrônicos – perderam as marchas progressistas da História. Estão apegados ao status ilógico da realidade ao ponto de criarem outras realidades, todas paralelas e atreladas a teorias da conspiração das mais estapafúrdias. Entretanto, elas também servem de “boi de piranha”....          

 

 

A EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

 


No texto anterior falamos a respeito de alguns aspectos das semelhanças entre a pandemia de covid-19 e a da gripe espanhola, tendo como painel fundamental as relações políticas e interesses de informação ou desinformação. Para nós da Rapsodo dos Sertões, tratou-se de um texto sem grandes pretensões, a não ser a demonstração de que estamos repetindo uma experiência já vivida, tanto na sua dimensão trágica quanto de farsa. Longe da nossa alçada querer adivinhar o futuro – nossa bola de cristal sempre falhou! Entretanto essas comparações mal-arranjadas e rápidas podem nos levar a pensar quais os graus de intervenção e capacidades que temos, enquanto sociedade, de construir coletivamente um futuro menos pesado e difícil para as várias áreas de desenvolvimento humano.

Uma delas, de importância fundamental e que tem sido uma das mais discutidas é a Educação. Talvez uma das atividades sociais que mais produzem aglomeração. Tanto pelo número de pessoas quanto pela frequência diária dos encontros. Desta feita, a educação talvez seja uma das últimas atividades cotidianas a retornar a sua normalidade – se é que isso seja possível. E pensando nessa dificuldade, atrelada a razão de que nossas escolas são o reflexo mais exemplar de todas as nossas desigualdades sociais. O Brasil é um país que possui escolas que custam 4.000,00 R$ ou mais a mensalidade e ao mesmo tempo é o país que ainda possui escolas construídas com palafitas. No meio dessas duas realidades encontra-se um abismo imperceptível de realidades sociais. Questões são óbvias: como manter o processo educativo durante o tempo de quarentena considerando todas essas diferenças? O que será e como será o processo de rearranjo e retorno as aulas? O que faremos para não aprofundar ainda mais as diferenças e os déficits de aprendizagem dos nossos estudantes? Verdadeiros enigmas, mas que só poderão ser respondidos na vivência coletiva e em processos difíceis de experimentação em meio a maior crise sanitária da nossa geração.

Não existem, portanto, saídas lineares e horizontais para este problema. Um horizonte positivo é que possuímos, já, um documento referencial curricular que prevê direitos de aprendizagem para todos os estudantes do país. A BNCC deve amparar a organização metodológica dos períodos de quarentena e do pós-quarentena. Sabemos que as atividades não presenciais são essencialmente o formato para que cheguemos aos estudantes e suas famílias. Caminho difícil de ser trilhado claro. Um risco de retrocesso na aprendizagem e o distanciamento dos estudantes das escolas é muito grande. Portanto, a forma e a qualidade das atividades não presenciais serão decisivas para amenizarmos os efeitos destes problemas. Sabemos que será necessário tratar e levar em consideração as diferenças sociais de acesso as tecnologias da informação por parte dos estudantes. Muitos estudantes não possuem acesso a internet. O que fazer com eles? Que tipos de atividades podem ser realizadas? É necessário pensar sobre essa realidade. E já percebemos, nessa altura do campeonato, que as redes e os sistemas de ensino têm encontrado formatos e ritmos diferentes para sanar essa questão.   

A figura dos professores tem uma importância ímpar. Pensamos em outros tempos passados que, em um futuro distópico, como o que estamos vivendo, a figura do professor seria facilmente substituída pelas conexões da internet. Pois bem, chegamos no nosso futuro distópico e pandêmico e cada dia percebemos, cada vez mais, a importância da figura e atuação dos professores. Eles estão mais expostos, tanto no sentido da visibilidade quanto no sentido da disponibilidade do “atendimento” remoto necessário das suas devolutivas pedagógicas. É claro que a realidade da pandemia produz desafios para os professores piores que o labirinto do fauno, mas testemunhamos talvez o maior mutirão da história da nossa profissão.

A situação impõe diversas dificuldades como: 1. O cumprimento do calendário escolar, tanto o de 2020 quanto, dependendo da situação o de 2021. 2. O retrocesso da aprendizagem, que em vias normais já se dá com grandes dificuldades, imagina-se nesse momento sem a presença física coletiva dos estudantes e professores. 3. Problemas de ajustes do cotidiano familiar, já que agora são outros tempos em que a criança e o adolescente estarão em casa durante todo o dia e boa parcela dos pais trabalha durante o dia, impossibilitando o acompanhamento das atividades coincidente no horário das aulas 4. O perigo real da evasão escolar, tanto pela não adequação ao trabalho a distância como após a pandemia o número real de jovens que terão que ingressar de forma incipiente no mercado de trabalho para ajudar as suas famílias durante a crise. 5. Como construir um calendário que atenda às necessidades especiais deste momento? 6. Como enfim, criar práticas pedagógicas que atendam as demandas de estudantes que possuem acesso com qualidade à internet, mas também aqueles que não possuem acesso? 7. Como realizar o trabalho específico em alfabetização, devido a sua importância nevrálgica no processo educacional? Tanto para os que estão dentro da faixa idade/escolaridade quanto aqueles que não estão?  8. E enfim, e não terminando pois sabemos que cada rede apresentará ainda mais desafios, como mobilizar toda a rede? Gestores, corpo docente, discente, família e comunidade escolar que devem estar sonantes ao desafio minimamente.   

Dentre as várias medidas tomadas, em passos as vezes a diante e as vezes conservadores, não podemos negar que os mais variados entes responsáveis pela educação têm se mobilizado, discutido e agido frente ao caos. De formas diferentes, e tentando atender as mais diversas necessidades dos públicos que compõem a nossa educação, sabemos que no final das contas a urgência dos problemas educacionais vão se somar aos problemas sociais já inerentes a nossa população. O receio, mas o trabalho que deve ser desenvolvido, é que o abismo não se aprofunde ainda mais. O CNE (Conselho Nacional de Educação), após discussões consideráveis a distância e consulta pública das instituições interessadas, lançou no último dia 30 um parecer que orienta o desenvolvimento das atividades pedagógicas a distância nesses tempos de pandemia. É importante notarmos que, tal como já foi apontado, algo importante para essas indicações e apontamentos é que certamente eles não se configuram como a bala de prata da educação do Brasil. São medidas emergenciais em tempos de exceção, que inclusive podem e devem direcionar novas práticas para o pós-pandemia, mas não serão o caminho das pedras que todos devem seguir da mesma forma. As redes, escolas e professores encontrarão seus formatos, práticas e redes de diálogos a partir dos insumos que dispõem – e isso não deixa de ser uma preocupação em um país tão desigual. Do ponto de vista pedagógico, estrutural e financeiro o parecer recomenda o uso de aulas presenciais, após quarentena, concomitante aos trabalhos individuais a distância como atividades letivas que devem ser computadas para o total do ano letivo. Um ponto de atenção importante é a Educação Infantil, pela sua necessidade de interação e ludicidade maior que a das outras etapas de ensino. Mesmo que essa necessidade seja um imperativo frente as condições sociais e de trabalho de muitas famílias brasileiras. Mas algo que desconfiamos que seja acenado para o futuro pós-pandemia é que essas atividades não presenciais se configurem ainda mais, com ou sem o uso da internet, como um dos processos complementares ao ensino presencial. É necessário pensar também em um processo de orientação às famílias. Se a situação é nova para a educação imagine para as famílias, que perpassam por grandes problemas financeiros e a situação de estar com seus filhos durante o dia inteiro com o desafio de mantê-los em um mínimo alinhamento e concentração para os estudos.  

Outro ponto importante é pensarmos o retorno. Uma condição objetiva se apresenta para todos nós. Certamente teremos que retornar às atividades educacionais de forma presencial sem termos ainda um tratamento eficiente e/ou uma vacina. Serão necessários vários protocolos de retorno, com segurança sanitária suficiente para estabelecermos uma nova normalidade. Partindo deste princípio precisamos analisar também que, são variados níveis e etapas de ensino, mas que, entretanto, todos foram afetados pelo processo de quarentena da pandemia, mesmo que em níveis e formatos diferentes. O processo de retorno deve ser gradual. É importante dizer que a abertura ou fechamento das escolas deve obedecer, e já está obedecendo, as ondas de picos de contaminação nos vários países. Entre cancelar o ano letivo (que se caracterizaria uma tragédia tal como foi na pandemia da Gripe Espanhola) até reabrir as escolas de forma planejada existe um abismo de opções, que na verdade são imposições de novas realidades. Será necessário um grande planejamento e a inclusão de protocolos sanitários extremamente complexos – não se trata de uma tarefa simples. E ele deve ser dialogado entre os principais entes responsáveis pela educação do país. MEC, Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação, Secretarias Estaduais e Municipais e principalmente escolas, famílias, professores e estudantes. Salientamos, entretanto, a inclusão do MEC mesmo considerando todas as ações que estão sendo desenvolvidas como se não estivéssemos vivendo em regime de exceção – vide o exemplo da tentativa de se impor o ENEM goela abaixo, sem contar com as latentes desigualdades entre os nossos estudantes e que o atual momento aprofunda ainda mais. É quase como se colocar sal na ferida!

De certo que esse tempo demonstra uma capacidade memorável de resistência para a manutenção da relevância do trabalho da educação. O de certo é que a Educação é um dos eixos fundamentais para o desenvolvimento da sociedade, não somente em tempos comuns, mas no nosso caso em tempos de crise como o que estamos vivendo. Desta feita queremos testemunhar que as frentes de trabalho são amplas e se inserem tanto no serviço público quanto no serviço particular. A satisfação é de estar nas duas frentes – pública e privada, em trabalhos valorosos da Secretaria Municipal de Ensino de Campo Alegre – Alagoas na figura representante e atuante da professora Graciene Alencar e equipe e da UMJ - Centro Universitário Mário Pontes Jucá, na figura representativa do professor Mário César Jucá e equipe. E que sigamos ampliando a rede de apoios e ações em um momento tão difícil.  

Daniel Marinho é o Rapsodo dos Sertões.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

FORMAÇÃO DE PROFESSORES/GESTORES – ESTABELECIMENTO DE METAS ESVAZIANDO A XÍCARA





FORMAÇÃO DE PROFESSORES/GESTORES
ESTABELECIMENTO DE METAS
ESVAZIANDO A XÍCARA

Nas duas semanas em curso, nos dias 19 e 20 e 26 e 27 de setembro, a rede estadual de Alagoas estará passando pela formação dos seus professores/gestores. O número convém à nossa realidade, pois contabilizamos mais de 600 professores/gestores que, dispostos nas treze gerencias regionais e mais de 300 escolas, formam uma rede. A formação tem como eixo norteador que o professor/gestor é líder pedagógico da escola. É necessário fortalecer essa prédica. Por dois fatos: 1. Ainda é preciso que se fortaleça o papel de líder pedagógico dos professores/gestores pois ainda temos a peja de que a gestão da escola ainda está muito ligada a outros assuntos – prestação de contas, atendimento aos pais, indisciplina, fluxo de corredores, burocracia e etc. Por isso, torna-se muito importante realinhar o foco. É necessário salientar, também, que a rede estadual acabou de passar por um longo processo eleitoral, em que todas as escolas ou reelegeram seus professores/gestores ou elegeram novos professores/gestores, enfim, nesse universo de gestão escolar o número de professores que estão experimentando esse momento pela primeira vez ainda é considerável. 2. Ainda é preciso que se fortaleça o papel do líder pedagógico dos professores/gestores, pelo fato de que essa formação não pertence ao universo formativo desses professores. De forma simples, aprendemos na universidade a sermos professores e não professores/professor/gestores, a despeito que essa incumbência se demonstra aos colegas de profissão constantemente. Então, como saber se os caminhos trilhados estão sendo acertados? Como elaborar e reelaborar ações que possam efetivamente contribuir para a aprendizagem dos estudantes? Todas essas são questões que somente em colegiado constante e com o apoio das gerências regionais, colegas professores e SEDUC podem ser aprimoradas.
A formação começou pela árvore dos desafios, quando os professores/gestores são convidados a expressar, de forma rápida, quais eram os principais desafios que compõe o trabalho da gestão. A própria expectativa dos formadores era que, nesse momento, os professores/gestores se posicionem mais para questões relacionadas aos desafios estruturais, pessoal de apoio, comprometimento da equipe, indisciplina dos estudantes, a falta de foco, acumulo de atribuições, necessidade de descentralização de atribuições e etc., os desafios pedagógicos não foram muito descritos. Sintomaticamente os professores/gestores, por serem professores de formação não apontaram as questões pedagógicas, de forma consensual como um aspecto que já possui qualidade – quase um ponto pacífico.
Por outro lado, são elencadas questões de relacionamento como os mais pontuais como desafios. Assim sendo, a proposta inicial é exercitar a reflexão para a gestão por competências socioemocionais. Pelo óbvio compasso de que o desafio da convivência das vezes ultrapassa as barreiras do profissionalismo, tanto positivamente quanto negativamente. São questões sinuosas, de difícil acesso, pois envolve vidas, carreiras e sentimentos. É importante lembrar que na labuta da gestão de uma escola, na maioria das vezes se convive mais em ambiente de trabalho com outras pessoas do que em casa com os nossos familiares. A proposta é a utilização do autoconhecimento e de um alto grau de profissionalismo para se lidar com situações que fogem a qualquer regra de previsibilidade. Para saber superar esses desafios é necessário conhecimento e para tal, é necessário imergir nessa realidade. Agir como professor/gestor é perceber as entrelinhas e, além disso, saber agir sobre essas demandas. O diálogo entre esses diversos atores é difícil, pois somos fruto de gerações de professores que foram formados focando a especialização de sua própria área.... E no final das contas temos dificuldades em perceber a formação em sua totalidade humana: o ser humano afetivo, social e cultural. 
Por isso, o desenvolvimento das competências socioemocionais é extremamente importante para a qualificação dos professores/gestores. Capacidade de articular, mobilizar compreender diferenças, criar oportunidades potencializando os vários entes que estão em ação na escola. É óbvio que isso tem como objetivo fundamental a aprendizagem dos estudantes, com qualidade e tendo como princípios a igualdade e a inclusão pois estamos falando pontualmente de um equipamento social. As cinco emoções que enfocamos na formação são a abertura para novas experiências, a extroversão, a amabilidade, a conscienciosidade e a estabilidade emocional. Trata-se de um rumo novo, inclusive proposto para o desenvolvimento de competências e habilidades da BNCC, e que também deve estar presente na atmosfera da escola. Os principais responsáveis pelo desenvolvimento dessa atmosfera? Professores/gestores.
No final das discussões sobre as competências socioemocionais os professores/gestores são convidados a participar de uma dinâmica de autoconhecimento. Por meio de uma mandala, traduzida em uma roda para equipes de alta performance, cujos pontos de avaliação são: valorização das diferenças, disponibilidade para compartilhar conhecimento e expertise, desenvolver o espírito de visão sistemática, saber como pensa cada um dos outros, metas comuns, noção comum de propósitos e de prioridades, disponibilidade para falar abertamente, conhecimento das forças e dos pontos de melhoria de cada um. Após a análise de cada uma das competências os professores/gestores são convidados a pensar nas três mais cambaleantes e inferir propostas sobre elas. É importante que eles tenham sempre a mandala das potencialidades perto de si, como um semáforo a guiar os seus procedimentos.
Em um segundo momento, os professores/gestores são convidados a refletir a respeito das questões inerentes a três dimensões da gestão da escola. A dimensão participativa, que remete a questões de caráter de integração entre os diferentes entes da escola, não é tão diferente do que foi trabalhado na questão socioemocional como caminho para a aprendizagem. Torna-se importante, olhar o ser humano com a riqueza que ele pode oferecer e a necessidade de se estar sempre alerta para enxergar o outro. E que possa pensar também que existe uma rede de colaboração e auxílio aos estudantes, crianças, jovens e adultos. Tudo isso constitui uma fortaleza cuja rede pode ser uma saída que contemple a resolução de problemas de forma coletiva e colaborativa.  A gestão administrativa tende a identificar quais recursos (humanos, financeiros e patrimoniais) estão à disposição da gestão da escola pois focá-los, permite um real plano de ação tendo o pedagógico como meta. Essa dimensão é extremamente delicada, pois ela fundamenta toda a base estrutural da escola. Dessa forma, é importante ressaltar que a Gestão Pedagógica pode ser abordada como gestão de resultados, que não deve concorrer com o processo de gestão para a aprendizagem. Com isso, vale salientar que é da maior importância introduzir questões de avaliação dos vetores que resultam em desempenho de aprendizagem. A dimensão pedagógica precisa de estruturação e organização de dados, cujos resultados não são importantes para ranqueamentos, mesmo que eles nos tragam a sensação de vitória e/ou derrota. A análise dos resultados, tanto da avaliação da aprendizagem, quanto das avaliações externas é importante por evidenciar os problemas de aprendizagem mais latentes, que evidenciam para a comunidade escolar quais são os filões que devem ser sanados. É importante ter em mente que não se cria uma escola com base em ações ao acaso, nem nos achismos, mas com uma base sólida, diagnosticada, avaliada, discutida e gerida coletivamente.
No final do primeiro dia os professores/gestores são convidados a participar de uma oficina avaliativa sobre as três dimensões.
No segundo dia, os professores/gestores foram convidados a analisar a respeito dos índices da escola sob sua gestão. Algumas questões serão propostas como: Qual a importância do IDEB no contexto vivenciado pela escola? Os últimos dados são recentes, e nesse momento estamos ainda percebendo os saltos, os avanços e os desafios que a rede precisa enfrentar para o novo ciclo do IDEB. A rede está sob a emoção dos últimos resultados, e suscitam maiores desejos. No final das contas essa é uma escolha importante da rede, mesmo que existam críticas que a respeito dos trabalhos impulsionados às metas do IDEB. Torna-se necessário, então, justificar em que medida esse trabalho deve ser empreendido. Pois o trabalho para a conquista do IDEB não é mecânico e não se desenvolve com fórmulas mágicas. E não constituirá apenas número, mas contribuição substancial para o futuro dos nossos estudantes.
Assim, os trabalhos que envolvem o fluxo, requerem a sensibilidade da mudança de perspectiva pois é necessário vencer a tradição da reprovação punitiva. Isso não ocorre apenas pela questão do índice, mas principalmente pela questão social. Existem, reconhecidamente, maiores possibilidades de evasão por parte de estudantes que estão fora do fluxo idade/escolaridade, que são justamente os que mais são reprovados. Assim sendo, o trabalho com a permanência e aprovação qualificada dos nossos estudantes é fundamental para a vida da escola enquanto, equipamento social. O índice, então, será obviamente resultado desse esforço.
No que diz respeito aos trabalhos preparatórios para a Prova Brasil, eles devem estar atrelados, não somente em momentos pontuais, mas devem estar articulados à gestão da aprendizagem dos nossos estudantes. Para isso, tornam-se necessárias avaliações diagnósticas, trabalhos de resgate da aprendizagem, organização qualitativa da avaliação da aprendizagem, eventos de preparação pontual, orientação/acompanhamento/formação da prática docente, melhoria do clima escolar, parcerias com a família e a comunidade, enfim todas as possibilidades que tornem a aprendizagem efetiva. Assim, é importante entender que, existirá muito mais dificuldade na progressão dos estudantes em todos os componentes curriculares se o trabalho de base, de leitura, interpretação, produção de texto e resolução de problemas não for realizado.
Os professores/gestores estão recebendo o boletim da escola, cujo material foi produzido de forma personalizada e descreve os índices para cada etapa de escolaridade de cada escola da rede, com dados de proficiência em Matemática, Língua Portuguesa, o coeficiente de proficiência e Fluxo. Além disso, no boletim constam os dados de 2015, os dados projetados e as notas alcançadas em 2017. Com isso os professores/gestores são convocados a refletir sobre o desempenho histórico da escola, e a partir de então, e a socializar experiências e propor um pré-plano de ação para o ano de 2019.
O momento está motivando a elevação da autoestima dos profissionais da educação, trazendo para os nossos estudantes maiores possibilidades de protagonismo. Percebemos uma variedade pungente de vivências e experiências em nossas escolas, em que várias tempestades de ideias surgem possibilidades de emersão da nossa educação. O saldo positivo desse momento está em fortalecermos o trabalho sistemático em rede. Mais de 300 escolas convocadas a pensar sua gestão tendo como foco a aprendizagem. Que 2019 seja repleto em sua seara e em seus frutos.
(Daniel Marinho, Rapsodo dos Sertões)